Primeiro texto publicado de Wagner. "A ópera alemã" de 1834.

 A ÓPERA ALEMÃ (1834)[1]

 

Quando falamos de música alemã, e especialmente quando ouvimos muita coisa sobre ela, parece-me que ainda há uma confusão de conceitos semelhante àquela em que a ideia de liberdade se encontrava entre aqueles velhos demagogos alemães de cabelos pretos que olhavam por cima dos ombros para os resultados das reformas modernas estrangeiras com um escárnio tão desdenhoso quanto os nossos conhecedores de música que blasfemam contra a Alemanha fazem agora. No entanto, temos um campo musical que nos pertence especificamente - e esse campo é o da música instrumental; - mas não temos uma ópera alemã, e a razão para isso é a mesma pela qual também não temos um drama nacional. Somos muito intelectuais e muito instruídos [viel zu gelehrt] para criar figuras humanas calorosas[2]. Mozart conseguia, mas foi com a beleza do canto italiano que ele animou seu povo[3]. Como agora passamos a desprezá-la novamente, nos afastamos cada vez mais do caminho que Mozart seguiu em parte para nossa música dramática. Weber nunca soube como tratar o canto, e Spohr quase tão pouco. Ora, o canto é o órgão por meio do qual uma pessoa pode se comunicar musicalmente e, assim, se ele não é totalmente desenvolvido, falta-lhe a verdadeira linguagem. Nesse aspecto, no entanto, os italianos têm uma vantagem infinita sobre nós; neles, a beleza vocal é uma segunda natureza, e suas figuras são tão sensivelmente calorosas quanto são pobres em significado individual. Nas últimas décadas, os italianos provavelmente cometeram um mal semelhante com essa segunda língua natural, como os alemães fizeram com sua erudição - e, ainda assim, nunca me esquecerei da impressão que uma ópera de Bellini causou em mim recentemente, depois que me cansei profundamente da agitação orquestral eternamente alegorizante e, então, uma música simplesmente nobre apareceu novamente[4].

 

A música francesa recebeu sua direção de Gluck, que, embora fosse alemão, teve muito menos efeito sobre nós do que sobre os franceses[5]. Ele sentiu e viu o que ainda faltava aos italianos, ou seja, o significado individual das figuras e das personagens, sacrificando-os à beleza da música. Ele criou a música dramática e a legou aos franceses como propriedade deles. Eles a perpetuaram e, de Grétry a Auber, a verdade dramática continuou sendo um dos principais princípios dos franceses[6].

Os talentos dos bons compositores de ópera alemães mais recentes, Weber e Spohr, não são suficientes para o campo dramático[7]. O talento de Weber era puramente lírico, o de Spohr, elegíaco; e, quando se vai além de ambos, a arte e o uso de meios anormais devem ajudá-los a substituir o que falta em sua natureza. De qualquer forma, a melhor música de Weber é seu Freischütz, porque aqui ele pôde se movimentar na esfera que lhe foi designada[8]: o romantismo místico e misterioso, e essa doçura nas melodias folclóricas que pertencem precisamente ao reino do lirismo. Mas agora considere seu Euryanthe[9]! Que esperteza mesquinha na declamação, - que uso ansioso deste e daquele instrumento para apoiar a expressão de qualquer palavra! Em vez de expressar todo um sentimento com um único golpe ousado e incisivo, ele fragmentou a impressão do todo com pequenos detalhes e ninharias individuais. Como se torna difícil para ele dar vida às suas peças de conjunto; - como é lento o segundo final! Lá, um instrumento, aqui, uma voz quer dizer algo básico e, por fim, ninguém sabe o que está dizendo. E já que, no final, as pessoas têm de admitir que não entenderam nada, todos pelo menos encontram algum consolo no fato de que podem considerá-la surpreendentemente erudita e, portanto, podem ter grande respeito. - Oh, essa infeliz erudição, - essa fonte de todo o mal alemão!

Houve uma época na Alemanha em que a música era conhecida apenas pelo lado acadêmico - foi a época de Sebastian Bach[10]. Mas naquela época era a forma pela qual as pessoas geralmente se entendiam, e Bach expressava algo tão poderoso em suas fugas profundas quanto Beethoven o faz agora na sinfonia mais livre[11]. Mas a diferença estava justamente no fato de que aquelas pessoas não conheciam outras formas e que os compositores daquela época eram realmente instruídos. Mas essas duas coisas não são mais o caso. As formas se tornaram mais livres, mais amigáveis, aprendemos a viver - e nossos compositores não são mais eruditos, e o mais ridículo é que eles querem fingir que são esclarecidos. Você nem percebe isso nos verdadeiros acadêmicos. Mozart, para quem a parte mais difícil do contraponto havia se tornado uma segunda natureza, recebeu assim apenas sua magnífica independência; - quem se lembrará de sua erudição quando ouvir seu Fígaro? Mas isso, como eu disse, é o que importa: ele era erudito, agora se quer parecer assim. Não há nada mais errado do que essa fúria. Todo ouvinte se alegra com um pensamento claro e melodioso, - quanto mais compreensível tudo é para ele, mais ele é tomado por isso; - o compositor sabe disso mesmo, - ele vê o que produz e o que ganha aplausos; - isso é ainda muito mais fácil para ele, ele só precisa se deixar levar completamente, - mas, não! Ele é atormentado pelo demônio alemão, e ainda tem que fazer as pessoas acreditarem que ele também é culto! Mas ele nem sequer aprendeu o suficiente para produzir algo realmente erudito, do qual não emerge nada além de algo bombástico. Mas se o compositor quer se revestir desse aura [nimbus] erudita, é igualmente ridículo que o público queira fingir que entende e ama essa erudição, de modo que as pessoas que tão alegremente vão a uma animada ópera francesa se envergonhem dela e, por constrangimento, façam a confissão germânica de que ela poderia ser um pouco mais erudita.

Esse é um mal tão adequado ao caráter de nossa nação quanto deve ser erradicado; e ele também se destruirá, pois é apenas um autoengano. Não quero dizer, de forma alguma, que a música francesa ou italiana deva suplantar a nossa - por outro lado, isso, em vez de um novo mal, seria mais facilmente controlado -, mas devemos conhecer a verdade em cada uma e tomar cuidado com toda hipocrisia egoísta. Deveríamos dar um suspiro de alívio diante da confusão que ameaça nos esmagar, jogar fora uma boa quantidade de contraponto afetado de nossos pescoços, não ter visões de quintas hostis e nonas excessivas e, finalmente, nos tornarmos seres humanos. Somente atacando o assunto com mais liberdade e leveza é que podemos esperar nos livrar de uma ignomínia de longa data que aprisionou nossa música e, especialmente, nossa música de ópera. Por que nenhum compositor de ópera alemão conseguiu se destacar por tanto tempo? Porque ninguém sabia como obter a voz do povo, - isto é, porque ninguém captou a vida verdadeira e calorosa como ela é. Pois não é um flagrante erro de avaliação do presente quando alguém agora escreve oratórios em cujo conteúdo e formas ninguém mais acredita? Quem acredita na rigidez mentirosa de uma fuga schneideriana, precisamente porque agora ela é composta por Friedrich Schneider[12]? O que nos parece honroso no caso de Bach e Händel por causa de sua autenticidade, agora deve necessariamente se tornar ridículo no caso de Schneider, porque, digamos mais uma vez, não se acredita nele, já que não é de forma alguma sua própria convicção[13]. Devemos aproveitar o momento de agora [Zeit] e procurar desenvolver suas novas formas de maneira sólida; e o agora será o guia/mestre, que não escreve nem em italiano, nem francês, nem mesmo em alemão[14].

 



[1] Publicado anonimamente no periódico literário e cultural Zeitung für elegante welt [Jornal para um mundo requintado” que existiu entre 1801-1859. O periódico era dirigido por Heinrich Laube (1806-1884), integrante do movimento “Jovem Alemanha [Junges Deutschland], engajado na defesa de liberdades democráticas a partir de posições contra o reacionarismo do Estado e da Igreja. Wagner aproximou-se de Laube e do movimento, tendo publicado ainda em 1842 seu “Esboço autobiográfico” no periódico, além de textos durante o período de Paris (1839-1842). “A ópera alemã (1834)” apresenta temas que serão retomados em “Pasticcio, também de 1834 e "De la musique allemande", de 1839, e ampliados em Ópera e Drama (1852). V. Para uma tradução comentada do texto, v. RICON, 2011.

[2] Tema recorrente no texto. Disso, a amplitude da tradução: a expressão “viel zu gelehrt” pode ser vertida como “muito estudiosos”, “eruditos demais”, “cultos demais”, enfatizando uma cultura letrada.

[3] Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).

[4] Referência à obra I Capuleti e Montecchi, baseado em Shakespeare (Romeu e Julieta), apresentada em Leipzig, em 1834. A mezzo-soprano mezzo-soprano Wilhelmine Schröder-Devrient (1804-1860) cantou o papel de Romeu, como convidada. O impacto dessa performance levou Wagner a escrever este artigo e a direcionar sua carreira para a ópera, como ele narra em sua biografia Mein Leben [Minha vida]. Wagner escreveu para ela os papéis de Adriano em Rienzi; Senta em O Navio Fantasma; e Vênus em Tannhaüser. Mais tarde, em 1872, Wagner dedica-lhe o ensaio “Über Schauspieler und Sanger [Sobre Atores e cantores]” .

[5] Christoph Gluck (1714-1787), compositor alemão de óperas, com grande sucesso em Paris, integrando as tradições dramático-musicais francesas e italianas. Ainda, propôs uma reforma da ópera, com atualização do modelo clássico.

[6] André Grétry (1741-1813), compositor francês de óperas cômicas, gênero dramático musical no qual temos cenas cantadas com partes faladas, ambientadas no cotidiano. Daniel Auber (1782-1871), compositor francês de óperas, que frequentemente colaborou com o libretista Eugène Scribe (1791-1861).

[7] Carl Maria von Weber (1786-1826), compositor alemão cujas óperas desenvolveram a Ópera Romântica Alemã, a partir das óperas cômicas francesas. Louis Spohr (1784-1859), compositor e regente alemão.

[8] Estreada em 1821, em Berlim. Em português, tem por título “O Franco-Atirador”.

[9] Ópera de Carl Maria von Weber, que estreou em Viena, em 1823.

[10] Johann Sebastian Bach (1685-1750).

[11] Ludwig van Beethoven (1770-1827).

[12] Friedrich Schneider (1786-1853). Prolífico compositor alemão, autor de obras didáticas, entre elas manuais para composição musical (Elementarbuch der Harmonie und Tonsetzkunst, 1820), canto e Órgão.

[13] Georg Friedrich Händel (1685-1759). Compositor barroco alemão naturalizado inglês.

[14] No original: Wir müssen die Zeit packen und ihre neuen Formen gediegen auszubilden suchen; und der wird der Meister sein, der weder  italienisch, französisch -noch aber auch deutsch schreibt. 


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Marcus Mota
Professor Titular / Full Professor
Universidade de Brasília/ University of Brasilia/Brazil
Instituto de Artes/ Institute of the Arts 
Laboratório de Dramaturgia e Imaginação Dramática (LADI)/ Drama LAB
Editor da Revista Dramaturgias/ Main Editor Journal Dramaturgies

Minhas publicações/ My texts

Revista Dramaturgias/ Journal Dramaturgies

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