Espaço - Uriel
Contexto:
Meu amigo = a pessoa com quem estou produzindo as músicas e que colabora comigo neste projeto.
Meu outro amigo = a pessoa que está me ajudando na partitura.
Semana passada, eu tive que pedir ajuda a um outro amigo de Ponta Grossa, para fazer uma partitura de coral. Esse meu outro amigo, antes de me ajudar, pediu para ouvir as músicas que já tinham sido feitas até então, e sua resposta ao escutá-las foi:
"Nossa, vocês construíram todo um espaço, um cenário, né? Nas músicas."
E de fato, esse era o objetivo. Cada música é baseada em uma estação, portanto meu amigo e eu utilizamos sonoridades que deem a impressão de se estar dentro deste espaço, um espaço de outono, de inverno, de primavera, e de verão. Por exemplo... em fevereiro, meu amigo foi para o Canadá, e pôde conhecer a neve pela primeira vez! Por isso, na minha música de inverno, se escutam passos na neve.
É fato que o espaço sempre esteve em jogo nesse projeto, mesmo que de forma inconsciente. Meu amigo possui uma imaginação demasiadamente fértil, ele vê, ele está, mesmo quando tudo que ele pode fazer é escutar. Dentro de se escutar algo, ele ativamente está participando dentro de cada elemento que a música lhe fornece, portanto, eu sei que quando ele tiver em mãos a música de inverno e escutar os passos na neve, ele irá, na verdade, se ver, ouvir, e sentir caminhando na neve no Canadá. Eu tomo vantagem de suas peculiaridades.
Quem tem prazer à leitura pode compreender com maior facilidade do que eu estou falando. Meu amigo e eu estamos construindo um espaço puramente imaginativo, onde o espaço são as músicas e a escrita. Por isso, é muito diferente de se construir um cenário cênico para uma peça de teatro, visto que assim todos os espectadores veriam uma única organização uniformizada, é tudo que os olhos captam, contudo, a interpretação sobre o porquê do tal cenário fica à mercê das narrativas mentais de cada espectador em particular. Se pensar assim, o espaço é um local que será sempre indefinido, o cenógrafo pode muito bem tentar passar uma certa imagem sobre o seu trabalho, porém não é possível controlar o que se passa na imaginação daqueles que não participaram do processo de composição, e, portanto, pode ser que não se atinja o objetivo desejado, e isso não é necessariamente uma coisa ruim. Utilizar-se da interpretação pessoal é uma arte, e também é muito divertido.
Para tanto, a construção do espaço do nosso projeto é algo muito particular, não é algo visto, tateável, cheirável, ou degustativo, mas certamente é sentido.
Meu professor de violino tem certo em si que ele deseja, por tudo neste mundo, que eu somente aprenda a tocar com os olhos fechados, como ele o faz.
"Eu quero muito que você avance logo nas aulas, para você aprender a tocar com os olhos fechados. Quando você conseguir, e eu sei que vai, você nunca mais vai conseguir ver a música do mesmo jeito."
É algo muito natural dele, quando ele tem o arco em mãos e começa a dedilhar as cordas, eu tenho a impressão de que, naqueles minutos, ele deixa todos em volta e vai parar em outro lugar que não sei onde. Como a cena do filme Soul, em que as almas vão para A Zona quando estão absortos em algo. Aquele é o espaço dele.
Outra forma de espaço que eu encontrei enquanto trabalhava neste projeto foram os sonhos. Por acaso, um dia, eu sonhei com uma versão perfeita do que seria a música de inverno. Ela era belíssima, porém eu acordei de madrugada e não pude resgatar nada porque, antes mesmo de raciocinar que eu tinha de registrar os vestígios de um sonho, eu tive de reconhecer que aquilo havia sido um sonho, e meu primeiro pensamento foi "ah... eu ainda estou aqui.", pois, em todos os meus sonhos, eu estou sempre em qualquer outro lugar, menos aqui. E ao conscientizar a mim mesma de que eu não estava em casa, eu perdi o espaço que havia dado luz à minha música perfeita de inverno.
O que eu estou tentando dizer com todos estes devaneios de exemplos, é que o espaço neste projeto configura-se em algo que só é visível em um plano que não é possível alcançar, é o espaço da mente, onde se raciocinam as figuras e os sons. O espaço é criado a partir de sensações e memórias daquele quem irá ler o conto e escutar as músicas.
Falando especificamente sobre as músicas, se tiver lido o meu blog, saberá que as inspirações são fortemente baseadas nas canções da Disney, com aquele tilintar que descreve cada cena, que quando uma personagem cai o violino cai também, que quando corre todos os instrumentos lhe seguem, e assim, o filme é quase que desnecessário, pois as músicas em si descrevem o cenário em que o espectador se encontra. Se constrói toda uma história e narrativa sem se pronunciar uma única palavra.
Em 2022, eu fui responsável por uma oficina da Pós-Graduação que a minha querida orientadora estava organizando, e após ter realizado tudo que se podia ser feito, ela me disse para participar de alguma oficina só por diversão para passar o tempo mais rápido. Prontamente, eu fui a uma oficina realizada por um dos professores de música, onde faríamos experimentações com o teremim, porque já na época eu tinha muita vontade de saber como aquele instrumento funcionava, e eu não fazia ideia de que havia um de prontidão na Uepg! Não podia deixar aquela oportunidade passar. Me diverti muito, e ao final, o professor pediu que todos pegassem uma folha e desenhassem o que o som parecia ser, criando uma partitura. Eu pedi 5 minutos, voei até o departamento de artes e peguei minhas tintas e pinceis, voltei para a sala, e ele tocou o teremim. Depois, ele pediu que nós desenhássemos uma partitura daquela forma, e outros teriam que interpretá-la diretamente no teremim... bom, é fato que os rapazes tiveram uma grande dificuldade de interpretar os meus rabiscos, e eu também tive com os deles, mas em todos, a música saiu completamente diferente do que cada um havia desejado de suas partituras.
Percebe? Cada um organizou e planejou seu cenário musical, contudo, cada um interpretou à sua forma. Toda vez que eu penso que esse professor que planejou a oficina, que se encontra à direita na foto, não poderia ter sido mais genial, ele me surpreende a cada nova análise. Ele se encontra na Nova Zelândia atualmente.
É por esse motivo que a escrita do conto depende inteiramente das músicas. Pois elas em si já são todo o espaço e todos os acontecimentos, eu e meu amigo só precisamos traduzi-los em palavras, e nada mais. Dessa forma, quando tudo estiver escrito, quando todas as músicas estiverem feitas, e tudo estiver em seu lugar, o espaço que surgirá é imprevisível, será muito particular de cada pessoa que escutar e ler. Nós tentaremos formular um espaço imaginativo, em que o espectador se encontre com a sensação de estar passando pelas estações, de que ele sinta o vento na pele, a neve nos pés, o cheiro das flores, e o Sol no rosto, é para esses espaços que as músicas irão guiá-los, contudo, se os coelhos que eles irão encontrar na história são completamente brancos, marrons, azuis, vermelhos, se a floresta onde eles estão é de pinheiro ou buriti, isso somente eles dirão.
Cordialmente, Uriel

Uau, que visão interessante. É um espaço amplo, embora restrito, repleto de signos, comigo dentro. Ao olhar os desenhos da foto, apesar de diferentes, vejo os mesmos elementos. Dá muito à pensar!
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